7.12.12

"Enfim, o fundo do poço da vergonha foi atingido quando a informática, o marketing, o design, a publicidade, todas as disciplinas da comunicação apoderaram-se da própria palavra conceito e disseram: é nosso negócio, somos nós os criativos, nós somos os 'conceituadores'!"

Gilles Deleuze

16.10.12

..pensemos, que as agendas podem mais do que a gente!


..apenas interessados em produtos diferentes, em rótulos e fórmulas de sucesso, frases de 20 segundos, anúncios publicitários parvos porque visivelmente falsos, em momentos artificialmente montados por gestores de imagem que claramente vivem num sinistro mundo de série de Tv americana obcecada pelo poder, a ideia, no sentido abstracto e positivo do termo (no sentido de algo estar em aberto, por responder, por descobrir e criar..., no sentido de projecto!!!!!!!!!!), simplesmente não tem lugar onde existir na politica actual portuguesa, refém de um poder interno e externo que não pensa mas apenas conspira por hábito, prazer ou, dizendo tudo, porque é a única coisa que sabem fazer, a política portuguesa tornou-se mais reacionária que qualquer revolução possível que um novo Cunhal consiga imaginar. 

..dizem-se coisas, trocam-se acusações e cadeiras, vendem-se bancos sem se vender e fala-se no passado como o lugar onde vivem as culpas, em casos e gafes e frases infelizes, multiplicam-se comunicações sobre decisões, ordens, pedidos, anseios: mas o que nunca se discute em Portugal, sobre nenhuma e qualquer circunstancias são ideias. Bem entendidos, nunca se discute ideias como uma ideia deve ser discutida, a saber: sem o preconceito do diferente, sem um plano à partida para que tudo fique na mesma... as agendas podem mais do que a gente!

..tudo aparece como um facto consumado, ou como a melhor ou única forma de se fazer qualquer coisa; tudo aparece sempre em pacote e nunca se discute a natureza própria e os detalhes do próprio, não fosse o Diabo estar à espreita: estás a favor ou contra? A natureza desta situação é naturalmente perversa, porque mostra até que ponto o nosso meio social está refém de uma semântica viciada que distorce diariamente palavras e conceitos em nome de uma não discussão da situação real do país; e pior, nesta fase, já só lhes resta, ao poder politico que não tem poder nenhum a não ser o de intermediário do poder de facto, inventar diariamente uma narrativa que coincida com a sua imaginação do que é o real, usando comentadores políticos  econômicos e porque não dizê-lo, desportivos, cuja única finalidade do seu vencimento é a de preencher um vazio: o das ideias, o da criatividade, o da imaginação e da morte clara de todo este arsenal de políticos encomendados.

soluções? do tipo 2+2=4?  não sei, pensemos sobre o assunto! pensemos!

ps:. não falei no papel da comunicação social, primeiro porque não me apeteceu e segundo porque ela não existe (tirando a dúzia de jornalistas que faltam despedir...) 
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16.9.12

..epifania habitual:

...a responsabilidade (simplificando, de tudo) também é minha.

ps:. a todos os prós e contra new age, disse responsabilidade, não culpa; nem um deus de luz adormecido encoberto nem um monte de merda espacial aleatória a descoberto: um Homem.
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30.6.12

..efeito psicadélico do ar (podia ser sempre verão...)

..talvez nada disto exista no sentido literal do termo, metáforas biológicas(?): as palavras, este blogue, o autor e o leitor, todos os acontecimentos que os animam; castelos de areia que não resistem à subida da maré, apenas sonhos, e ainda assim... é vê-los acordar todos os dias de manhã rumo à praia... 
..não fosse eu também humano e o que diria... contudo,
..talvez sejamos tão absurdamente reais que nem vale a pena tentar, nunca saberemos... se um dia o soubermos a questão já não se põe...
..num caso como no outro (ser ou não ser...), 
esta erva é muito boa e altamente recomendável, principalmente agora, que se aproxima o fim (não se aproxima sempre?)

Ps:. uma palavra a todos os proibicionistas deste mundo: 
cresçam.
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15.6.12

..vincent





Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,e já quase adormecia, ouvi o que parecia o som de alguém que batia levemente a meus umbrais."Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. É só isto, e nada mais."


Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,e o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dadaP'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxoMe incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.É só isto, e nada mais".


E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais; mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. Noite, noite e nada mais.


A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais. Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,e a única palavra dita foi um nome cheio de ais - Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais. Isso só e nada mais. 

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais."Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."Meu coração se distraía pesquisando estes sinais."É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais. Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,Foi, pousou, e nada mais. 

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura com o solene decoro de seus ares rituais."Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,inda que pouco sentido tivessem palavras tais.Mas deve ser concedido que ninguém terá havidoQue uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,Com o nome "Nunca mais". 

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamentoPerdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortaisTodos - todos já se foram. Amanhã também te vais". Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,e o bordão de desesperança de seu canto cheio de ais era este "Nunca mais".


Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais; e, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira que queria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais, esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, com aquele "Nunca mais".


Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo à ave que na minha alma cravava os olhos fatais,Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinandoNo veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incensoQue anjos dessem, cujos leves passos soam musicais. "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te o esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais, o nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" Disse o corvo, "Nunca mais".


"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,a este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,a esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atraisSe há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais! Disse o corvo, "Nunca mais".


"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida verá essa hoje perdida entre hostes celestiais, essa cujo nome sabem as hostes celestiais! "Disse o corvo, "Nunca mais".


"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte! Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais! Não deixes pena que ateste a mentira que disseste! Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais! Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!" Disse o corvo, "Nunca mais".


E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda no alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais. Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha, e a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais, Libertar-se-á ... nunca mais!

 

Edgar Allan Poe
(Tradução de Fernando Pessoa)
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